sexta-feira, 25 de maio de 2012

            

COMO CONECTAR SAÚDE: E EXPLODIR  VIDA



O  trabalho a seguir foi apresentado no V Encontro Acadêmico do Curso de 
Psicologia , realizado  no dia 23.05.12  no Centro Universitário Metodista  IPA.
Rosmeri Santos,  acadêmica do curso de Psicologia.
Cristian Guimarães, Professor orientador.


Renda-se como me rendi.
                         Mergulhe no que você não conhece,
                                                      Como eu mergulhei.
                                                            Clarice Lispector.
                  
             

1.    I NTRODUÇÃO


        No  ato diagnóstico  pautado no modelo médico,  o profissional da saúde,  efetua uma territorialização  onde o que mais se valoriza no discurso do paciente são os sintomas da doença    que   podem     identificá-lo,  enquadrá-lo,  reduzindo-o a um estudo de caso.
         Neste trabalho pretendemos fazer a inversão dessa lógica,  ou seja deslocar olhar da doença para a saúde, ou melhor  para a “Saúde”  a Vida, mas como fazer isto?  e com que propósito ?
         Para fazermos esse estudo inicial e exploratório, de  tema tão amplo e complexo, utilizamo-nos  como pano de fundo  leituras de Dostoiéviski, Nietzsche,  Foucault, Deleuze, e outros pensadores que pudessem nos auxiliar nesta caminhada tão pretensiosa , difícil , mas extremamente instigante.






Como esse  trabalho  tem como demanda  a nossa prática  do  Estágio Básico V, do curso de  Psicologia do IPA-POA, iniciaremos com a contextualização  do local  : O  Consultório de Rua ,  o  seu instrumento operacionalizador de saúde:  A  Clinica Ampliada, faremos uma sucinta análise psicossocial da  comunidade da Vila Nazaré, colocando em pauta o conceito: Ressentimento   e aí sim chegando a questão principal do nosso estudo, como conectar saúde para promover a explosão de Vida.



2.    OBJETIVO GERAL

 Desenhar uma análise dos processos de saúde da comunidade da vila Nazaré de Porto Alegre, a fim de compreender os movimentos capazes de promover a afirmação da vida.       
     
2.1.       OBJETIVOS ESPECÍFICOS

     Destacar sucintamente o Consultório de Rua e  A Clínica Ampliada.
      Fazer uma breve análise psicossocial da comunidade da vila Nazaré de Porto Alegre, identificando forças e fraquezas .
         Pensar num novo modo de  atuar a clínica tendo como dispositivo  o ressentimento.


3.CONTEXTUALIZAÇÃO DO LOCAL

Consultório de Rua

O  Consultório de Rua, é  uma proposta inovadora no cenário das políticas públicas no Brasil, tendo sua implantação inicial no estado da Bahia , e aqui no Rio Grande do Sul, na cidade de Pelotas e Porto Alegre, no ano de 2010,  através do Grupo Hospitalar Conceição – CR/GHC.
Como funciona na prática o Consultório de Rua ?
 O  CAPS Centro de Atendimento Psicossocial, localizado na Rua Dom Diogo de Souza em Porto Alegre  é o ponto de encontro , partida e chegada da equipe ,onde todas as sexta-feira no início da tarde, saíamos na van com os dizeres Pintando Saúde”.
Nossa equipe compunha-se de  seis ou sete pessoas, entre elas  dois estagiários de psicologia, eu e meu colega Ismael,  a psicóloga Silvia,  a terapeuta ocupacional, a enfermeira,a assistente social , e o motorista.
  Nosso  público alvo continha singularidades específicas, pertencentes a comunidades socialmente vulneráveis. A maioria  itinerante com uma relação diferenciada com o tempo: nion e chronos (1) que encontram-se em situação de exclusão e estigmatização (Cf. Goffmann.1988), aspectos muitas vezes efetivados na própria rede de serviços  públicos de saúde.
Inicialmente fizemos  o levantamento cartográfico, método fundamentado nas idéias de Deleuze e Guatarri, no sentido de que a produção do conhecimento vai se dando através das percepções,  sensações e afetos vividos no encontro com o seu campo.   
 Um dos pontos de atendimento do Consultório de Rua  é a  comunidade da vila Nazaré,  na zona norte de  Porto Alegre,  local de extrema vulnerabilidade social, com cerca de 4.000 pessoas, a sua maioria jovens, não existe  saneamento básico, o esgoto corre a céu aberto, a água e a luz são a base de “gatos”, ou seja quase que em total abando.
(1)     Deleuze reabilita a distinção estóica de nion e chronos para pensar a extratemporalidade do acontecimento ( ou caso se prefira, sua temporalidade paradoxal) A tradução corrente do primeiro termo por eternidade pode tornar a operação equivocada: na realidade, a eternidade própria ao instante tal como os estóicos a conceberem tem apenas um sentido imanente, sem relação com o que será a eternidade cristã ( como era também a interpretação por Nietzsche do Eterno Retorno). Aion opõe-se a Chronos, que designa o tempo cronológico e sucessivo, em que o antes se ordena ao depois sob condição de um presente englobante o qual, como se diz, tudo acontece ( Deleuze concorre aqui com Heidegger, que, sob o nome de “resolução antecipatória”, contestara o primado do presente de Agostinho a Husserl).
As primeiras visitas foram desoladoras, impactantes mesmo, pois sabermos das misérias que o sistema capitalista impõe a  
milhões de brasileiros através dos livros é bem diferente de vivenciá-la por dentro, é um soco no estômago. Feito o levantamento cartográfico, o cenário mostrou-se ainda mais desolador.
         As casas foram construídas com restos de papelões, latas recolhidas do lixo;  as melhores com madeira em decomposição, e ainda  muitas pessoas vivendo ao relento, cobertas com restos de jornais ou pedaços de plásticos. 
         A maioria  dos moradores não possuem renda fixa, vivem do lixo ou ainda  : do tráfico de drogas . Muitos dos pais da vila Nazaré,  esta  preso ou já foi , ou usuário de drogas   ou portadores de muitas outras enfermidades.
         Seus níveis de escolaridade são baixíssimos, sendo comum
ver  crianças faltando a escola para cuidar de outras crianças
ou  servindo de mula aos traficantes do local para garantir a sua sobrevivência , muitas  vezes única fonte de renda da família.
         Passado o impacto inicial, que para nós filhos de classe média, mais parece cenário de pós guerra,  vamo-nos deixando transversalizar por essa realidade, por essas pessoas, que também  vão se tornando menos esquivas, mais receptivas.
         Aos poucos  o encontro com pessoas  vítimas de abusos,  da miséria, das drogas, de doenças, do descaso do poder público , vítimas sob vários aspectos e que muitas vezes correm o risco de  entram num processo  de vitimização  sem saída.
         Procuramos então   manter  a atenção concentrada , mas ao mesmo tempo  flutuante,  e aos poucos vamos  identificando alguns pontos, linhas, nós , que denotam  potências de vida, que podem puxá-las a  realidades, a vida, empodeirando-as.


 4.REFERENCIAL TEÓRICO
Clinica Ampliada
Mas o que é Clínica Ampliada?  
São equipamentos de saúde com potencialidade para promover articulações nas redes setoriais. Em sua atuação atinge um público com demandas complexas e queixas múltiplas buscando romper com o isolamento do setor de saúde construindo parcerias eficazes.
A Clinica Ampliada busca construir  um cuidado  que possa integrar as diversas abordagens disciplinares  garantindo o alinhamento com as diretrizes da Política para Atenção Integral para as pessoas que se encontram em situação de sofrimento.
Prioriza o  desenvolvimento  de uma política voltada a saúde mental, com  plano emergencial de ampliação ao acesso ao tratamento e prevenção, política de humanização, baseados nos princípios que norteiam a prática do SUS- Sistema Único de Saúde:  universalidade, integralidade, equidade, com a estratégia  prioritária da redução de dano.
         E voltando a nossa prática de estágio,  na comunidade da Vila Nazaré, fomos ao combate, mas ao “bom combate,” expressão  usada por Lancetti, em seu livro: Clínica Peripatética, que no sentido etimológico do termo “piritateo” significa: passear, ir e vir, conversando e  onde aos poucos fomos  construindo vínculos, vencendo resistências, amenizando sofrimentos, potencializando vida em espaços já  construídos ou a construir,  junto  a      comunidade,       como a  rádio comunitária, o futebol  do grupo de adolescentes,  o  grupo de crianças,  o pessoal da sopa, o líder comunitário, o pessoal do posto de saúde , que  denominamos aqui como:  “jogo de forças”,  “ vontade de potência “, pois  resistem, lutam pela vida, não permitindo, apesar da dor, se  vitimizarem , se tornarem: “ Ressentidos.”
  Mas o que é a vontade de potência?  Segundo Viviane Mosé, em seu livro Nietzsche e a Grande Política da Linguagem , é esta resistência , esta tensão , é  a contraposição expansão-resistência é exatamente aquilo que caracteriza o choque, a luta, entre o jogo vigoroso de forças.
Mas o que quer a vontade de potência?  Ester Maria Heuser em sua tese de doutorado : Pensar em Deleuze,   faz várias reflexões interessantes ao responder essa questão como : querer destruir com alegria, criar com agressividade,  vontade
alegre e agressiva, criticar todo e qualquer ideal. Julgar a razão por dentro, partir as tábuas de valores, afirmar a vida. Vontade afirmativa.  Coloca ainda que para sentir e viver a vida de outro modo, a vida e o pensamento deve seguir a mesma direção, sendo guiados pela criadora vontade de potência.

          MAS COMO FICA O CONCEITO DO RESSENTIMENTO ?

         Saúde não é apenas  falta de doença,  o indivíduo pode ser “saudável”, mas  ser triste,  apático, sem vida.
         E por acreditarmos nisso que resolvemos, em nosso estudo, deslocar o olhar da doença para a vida,  a vida do homem atual que se ressente por não obter sucesso, se ressente por achar que o outro é mais poderoso , mais jovem, mais esbelto, se ressente por não conseguir abrir mão de nada,  nem mesmo para ser feliz , se  ressente ainda por ter que conviver com perdas inerentes e importantes da existência, se ressente.... e  fazermos uma reflexão , será que o Ressentimento não seria um sintoma da Vida atual ?  
Após  leitura de vários  casos clínicos, e de muitos relatos,  constatamos que muitas pessoas após  se defrontarem com situações de grande impasse, perdas significativas, ou vivenciarem longos períodos de sofrimento, ou mesmo  por não conseguir lidar com questões  do  mundo atual ,  desenvolveram  determinados   transtornos mentais ou ainda  produziram  várias comorbidades ,  são vidas  carregadas     de  ressentimento.  Procuram então alívio nas  drogas lícitas ou ilícitas, reforçando o modelo médico, focado na doença,  fortalecendo a indústria farmacêutica própria    do  sistema capitalista, gerando a indústria da produção de doença.
         O ressentimento nos faz cegar para a vida, o sujeito ressentido bem exemplificado no livro de Dostoiévski,   Memórias do Subsolo, passa a vida  ressentido-se, ruminando acontecimentos do passado, culpando o outro por seus fracassos,   infantilizando-se, vitimizando-se ,  e por fim  culpabilizando-se . Não conseguindo viver o presente, preso em sua própria prisão ,constrói muros cada vez mais altos e sistemas cada vez mais complexos para mantê-lo assim, impotente, fraco, doente.
         A individualização, a infantilização, a vitimização e a culpabilização são os processos que fazem parte  do ressentimento, fechando-se um círculo vicioso, em que o psicólogo  atual precisará romper.
         A princípio parece algo simples,  mas o processo analítico a luz da “teoria do ressentimento”,  envolve também   muitas perdas  assim como ,tomar para si a responsabilidade da própria vida.
         Vale lembrar ainda que segundo  Nietzsche: para construirmos as verdadeiras bases da subjetividade e da psicologia, devemos romper com preconceitos metafísicos e morais.
         A  teoria Nietzscheana sobre o ressentimento coloca  que o sujeito ressentido  está condenado a não poder afastar da consciência a experiência do sofrimento. “Essa capacidade ou impotência para afastar da consciência a dor vivida é que distingue saúde da doença, a força da fraqueza.”2(pag.83).
         “O tipo ressentido é aquele no qual ocorre uma inibição ou bloqueio na capacidade de descarga de energias e afetos em direção ao exterior”3, envenenando-o, produzindo doenças .
(2) e( 3) Junior,Oswaldo Giacoia in: Nietzsche como Psicólogo.
                O ressentido é aquele que sente e ressente , infinitas vezes, ele não consegue esquecer,  não quer esquecer,  faz questão de lembrar.  Quer se vingar do seu algoz,  mas  nunca  conseguirá,  a sua vingança é sempre adiada, permanecendo sempre só na imaginação, que aos poucos irá envenenando-o,  adoecendo-o.  A  culpa  também é sempre do outro, ele é sempre refém do outro, que no caso sempre é mais forte, mais senhor de si, o soberano. O ressentido   permanece  no  lugar de escravo,de fraco, de doente, gerando um sentimento ainda mais amargo,sentindo-se ainda mais  culpado, ressentido.
         O indivíduo fecha-se em si mesmo, por isso é um ser individualista, egoísta,  atribui ao outro todas as sua mazelas, por isso infantilizado-se , pensa que o outro é a razão do seu sofrer: vitimizando-se,  atribuindo ao outro qualidades superiores e considerando-se ainda mais culpado , é o ciclo vicioso da doença, do ressentimento.
         Essa forma  doentia de vida  não seria própria de nossa atual sociedade ?  Não poderíamos então   colocar o Ressentimento  como um sintoma social ? Esta é uma questão levantada por Maria Rita Kehl, em seu livro : Ressentimento.
         MAS COMO O DISPOSITIVO DO RESSENTIMENTO OPERA NA COMUNIDADE ?
         Ao  depararmo-nos com os relatos das histórias da maioria das pessoas portadoras de sofrimento psíquico da vila Nazaré percebemos logo que carregam um forte conteúdo de vitimização, um dos pilares do ressentimento que aqui queremos por em pauta.
        São pessoas em sua maioria  ressentidas, no sentido de ficarem ressentindo, repisando, remoendo pensamentos que vão envenenando-as e paralisando-as, e transferindo sempre aos outros toda e qualquer responsabilidade.
    MAS COMO O PSICÓLOGO PODERÁ  AJUDAR A ROMPER COM O RESSENTIMENTO ?
    Não é nada fácil para o psicólogo atuar junto a essas pessoas que vivem em condições de extrema vulnerabilidade social, e que aqui quero confessar que a princípio achei que não tivéssemos o que fazer, tamanha impotência que sentimos ao sermos cercados de tanta miséria ,dor e sofrimento.
   Lembrei-me então do relato de Viktor Frankl, em seu livro Em  Busca de Sentido : “ mesmo  no campo de concentração, se pode privar a pessoa de tudo menos da liberdade última     de assumir uma atitude alternativa frente as condições dadas.  Como por exemplo  as pessoas que caminhavam de barracão em barracão, dando uma palavra de carinho, ou entregando a última lasca de pão.” Mais adiante ele fala-nos sobre a Arte no Campo de Concentração que realizavam nos minutos fugidos da vigilância dos nazistas, em que encenavam algumas peças de teatro, contavam poesias, deixando de pensar, de remoer pensamentos mortificantes, produzindo então saúde, sendo apesar de vítimas, não se  deixarem vitimizar, não se ressentindo a ponto de se entregarem ou seja juntando forças e sabendo que só podiam contar com eles mesmos, para a sua sobrevivência, conectando então saúde, afirmando a vida.
     Recordo-me então de uma moradora da comunidade, que a psicóloga da equipe atendeu, as queixas remontavam aos filhos, ao marido preso, a vida difícil e a repetição das queixas funcionavam como uma proteção do “Eu”, assim eu não preciso mudar em nada, afinal não tenho nenhuma responsabilidade, e passam a vida se martirizando se ressentindo. O ressentimento expressa a tentativa do eu de evitar confrontar-se com a própria covardia e com os prejuízos que ela causou.
     O ressentimento também expressa a recusa do sujeito em sair da dependência: ele prefere se protegido, mesmo que seja prejudicado, a ser livre e dono de suas escolhas, é o que Nietzsche chama de” moral dos escravos.”

       MAS O QUE PODE SER USADO COMO AFIRMAÇÃO DA VIDA NA COMUNIDADE ?
      Dentro da comunidade detectamos alguns pontos importantes dessa potência de vida, em que os sujeitos deixaram de lado a “moral de escravo” e  assumiram a “moral dos senhores”, ou seja senhores de suas próprias  escolhas, desejos, vidas.
    Fico feliz então em lembrar do músico da comunidade que conversei pessoalmente, semi-analfabeto, mas de grande sensibilidade e inteligência, relatou-me que já esteve no fundo do poço, foi viciado em drogas, licitas e ilícitas de todos os tipos e quase morreu, foi então que descobriu que precisava parar de remoer as tristezas, os muitos fracassos, as perdas, e seguir em frente, descobrindo um novo sentido a sua vida e não mais se  RESSENTINDO dela.
   Este músico é também o compositor das músicas de Happ da comunidade, participa da rádio comunitária que o pessoal do Consultório de Rua ajudou a implementar  é um exemplo importante de saúde a todos.
     A “senhora da sopa” que cozinha todas sextas-feiras, para as crianças e adultos , sempre de bom astral ela mexe e remexe aquele  seu panelão com todos  aqueles legumes doados pela comunidade, engrossando o caldo com muito amor e dedicação.
   Finalmente   o nosso grupo de contação de histórias infantis , que começou no nosso Estágio Básico IV, em que o professor João Trois, foi nosso orientador e que também contribuiu  em muito na  nossa caminhada.
                                    Passear, ir e vir
                                            conversando, ...
                                                 conectando saúde : explodindo Vida.
  
   
                                                                                                                                                
Bibliografia
FOUCAULT, Michel. A Hermenêutica do Sujeito.  São  Paulo. Martins Fontes. 2010.
GOFFMANN, Erving. Estigma. Rio de Janeiro. Zahar. 1980
GUTFREIND, Celso. O terapeuta e o lobo.Rio de Janeiro.2010.
GUATARRARI, Félix;  Rolnik, Suely. Micropolítica: Cartografias do Desejo. Rio de Janeiro. Editora Vozes, 2005.
JUNIOR, Osvaldo Giacoia. Nietzsche Como Psicólogo. São Leopoldo RS. Editora Unissinos, 2006.
KASTRUP. V.  O Funcionamento da Atenção no Trabalho Cartográfico. Psicologia e Sociedade. Porto Alegre, 2007.
KEHL, Maria Rita. Ressentimento. São Paulo. Casa do Psicólogo. 2011.
LINS, Daniel. Nietzsche e Deleuze. Rio de Janeiro. Relume Dumará, 2001.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Cartilha do Ministério da Saúde.
Clinica ampliada e compartilhada. Secretaria de Atenção a Saúde, Política Nacional de Humanização da Atenção e Gestão do SUS – Btasília: Ministério da Saúde, 2009.
MOSÉ, Viviane. Nietzsche e a Grande Linguagem. Rio de Janeiro.Civilização Brasileira. 2005.
NIETZSCHE, Friedrich. Humano Demasiado Humano. São Paulo. Editora Schwarcz Ltda, 2005.
NIETZSCHE, Friedrich. A Genealogia da Moral. São Paulo. Editora Escala, 2007.
PAIM, Jairnilson Silva. O que é o SUS ? Rio de Janeiro. Editora Fiocruz, 2009.
PAL PELBART, P. da Clausura do Fora ao Fora da Clausura: Loucura e Desrazão. São Paulo, 1999.

domingo, 4 de setembro de 2011

A Psicanálise e a Sociologia Contemporânea


       As teorias e os sistemas em psicologia mais tradicionais encontram na contemporaneidade um contexto social muito diverso daquele que lhes serviram de pano de fundo por ocasião de seu desenvolvimento. A psicanálise, por exemplo, surgiu em um contexto tradicional, onde os indivíduos possuíam identidades, modos de vida e papéis na sociedade mais ou menos fixos, o que contrasta com o que ocorre na atualidade. Entre a sociedade vienense da época de Freud e as sociedades da alta modernidade há uma separação histórica marcada por profundas transformações sociais e políticas que mudaram o mundo e que a essa altura não lembra em nada aquela sociedade fechada onde Freud desenvolveu suas idéias. Portanto, sendo a psicanálise um produto cultural de tal época, conclui-se que só pode ter grande eficácia em indivíduos contemporâneos e conterrâneos do pai da psicanálise. A ênfase dada por Freud às relações familiares e à sexualidade como determinantes de saúde ou doença mental encontra na atualidade uma série de “concorrentes” que não eram considerados anteriormente, pelo fato de não existirem ou pelo menos não afetarem substancialmente a vida das pessoas. A psicanálise, hoje, sendo levada a efeito à maneira de “doutrina”, fechada em si mesma, sofre 
uma insuficiência nos seus instrumentos interpretativos, no que se refere às novas modalidades de inscrição das subjetividades, que não eram e nem poderiam ser as mesmas de tempos idos.  Todo o “arsenal” teórico construído tempos atrás, tanto da psicanálise quanto de outros sistemas psicológicos, vão encontrar cada vez mais dificuldades para dar conta das psicopatologias modernas, caso suas idéias não acompanhem as transformações sociais que ocorreram e ocorrem na sociedade e as discussões decorrentes disso.

     A percepção de alguns sociólogos contemporâneos contribui para que sejam reexaminados alguns conceitos tradicionais utilizados pela psicologia. Temas como consumismo, felicidade e a reflexividade do eu foram analisados por esses sociólogos que lançaram novas luzes ao debate sobre a produção subjetividade frente às novas imposições da vida social e permitem novas formas de pensar as teorias e sistemas em psicologia.

     Diferentemente das sociedades tradicionais, onde a vida era conduzida por caminhos relativamente fixos, a alta modernidade se caracteriza por uma ampla gama de escolhas com as quais o sujeito se depara. Nesse contexto surge um sujeito autorreflexivo, que se pensa, que escolhe e é incitado a todo o momento a se pensar e a escolher. Na afirmação de Guiddens sobre o fato de que “não temos escolha, senão escolher”, percebe-se a potência dessas imposições, onde a escolha se encontra disponível à venda. Entre os bens de consumo mais propagandeados estão as identidades móveis e mutantes que ao serem “adquiridas” já carregam em si a programação para “sair de moda”, bem como de tudo mais que cerca essa identidade. Escolher e mudar de identidade, descartar o passado e colonizar o futuro como uma forma de consumo por antecipação, são estímulos muito fortes que pairam sobre o sujeito.  De forma contrária ao que ocorria em universos tradicionais, onde o indivíduo preocupava-se com o passado, na atualidade ocorre um desestímulo dessa preocupação. Eis aí uma motivação importante para que a psicanálise se alinhe às novas formas de pensar o sujeito em seu novo contexto, sob pena de se tornar ineficaz enquanto terapia, caso continue centrando somente no passado das pessoas as causas de suas problemáticas atuais. A propósito, a Terapia Cognitivo-comportamental encontra amplo terreno de ação quando o assunto é a desconsideração do passado e valorização do futuro.
     O consumismo é uma cultura imposta a todo o momento e se constitui em um poderoso mecanismo produtor de adoecimento, pois incita a mudança de identidade para logo em seguida desvalorizá-la e ofertar as próximas tendências a serem escolhidas e pagas. Impõem uma idéia de felicidade áqueles que a essa altura se sentem obrigados a se alinharem com a moda, as novas tecnologias e novos designs. O mercado de consumo aposta em nossa irracionalidade quando o assunto adquirir novos “bens” em busca de uma felicidade que é inatingível por conveniência desse mercado, onde, inclusive as pessoas são consideradas mercadorias, algo como manequins estáticos, outdoors ambulantes, imagens a serem consumidas...
     Bauman fala sobre um sentimento de integração social gerada pelo ato de consumir. O mercado impõe a idéia (e as pessoas aceitam) de que para se sentir “incluído” é necessário estar atualizado em matéria de consumo.  Em função disso as pessoas adoecem por que não conseguem se controlar e consomem demais ou porque não conseguem fazer frente aos gastos excessivos e consomem de menos, correndo o risco de sentirem-se excluídas por que não adequadas ás exigências da vida social.

     Certamente não se pode negar a genialidade de Freud. A questão é até que ponto seus conceitos são aplicáveis nos dias de hoje. O Complexo de Édipo, por exemplo, será que ele pode ser considerado um fenômeno universal, aplicável em qualquer sociedade; ou atemporal, podendo ser aceito em qualquer época depois da época de Freud? Até que ponto a tríade edípica pode ser considerada fator que determina estados normais ou patológicos? E com relação aos outros sistemas que vêem no sujeito somente condicionamentos, aprendizagens e programações, sem considerá-lo em sua dimensão social e histórica. Até que ponto podem ajudar de forma eficaz aqueles que buscam auxílio ao invés de simplesmente buscar “enterrar” os sintomas apresentados?
     A essas e a muitas outras questões, a sociologia contemporânea oferece material para debates que possibilitam novas leituras e outras formas de pensar o sujeito em sociedade, bem como as novas formas de produção de subjetividade impostas/exigidas na atualidade.


            

"A Adolescência" Contardo Calligaris. Publifolha - RESENHA




    
CONTARDO CALLIGARIS é psicanalista, doutor em psicologia clínica e colunista da Folha de São Paulo. Italiano, hoje vive e clinica entre Nova York e São Paulo.
Autor de vários títulos de sucesso, entre eles: Cartas a um Jovem Terapeuta e A adolescência

 No livro “A adolescência”, Calligaris inicia com uma breve história fictícia à qual convida o leitor a fazer parte: após um acidente aéreo em algum lugar desconhecido da Amazônia, os sobreviventes são adotados por uma tribo de índios que os acolhe muito bem apesar de nunca terem tido contato com a civilização. Nos próximos 12 anos de convivência esses sobreviventes aprendem os costumes, a linguagem e as leis dessa tribo e passam a se sentir como parte dela. Aprendem que nessa sociedade, é importante se sobressair e adquirir destaque. Para tanto seria necessário se especializar em um dos campos que nessa sociedade, oferecem mais status. Os acolhidos absorvem a cultura dessa sociedade, observam, treinam e se especializam na pesca ou em serenatas com berimbau, que são as atividades que mais oferecem destaque e agora, próximo dos 12 anos de aprendizado, já se sentindo fortes, treinados e prontos o bastante para desafiar qualquer um nessas atividades, recebem a informação dos anciãos da tribo que deveriam aguardar mais dez anos para isso, pois talvez não esteja preparado o bastante. Os anciãos acrescentam ainda que esse “pequeno” atraso visa protege-los dos perigos que essas atividades representam e que teriam um prazo maior para se prepararem para vir a fazer efetivamente parte da tribo.      Após a narrativa da história, o autor pergunta ao leitor como se sentiria na pele dos aspirantes a membros da tribo diante dessa prorrogação. Não é difícil de imaginar...
     Através dessa figura, Contardo expõe o drama por que passa a criança, que tendo entendido quais as exigências para a entrada no mundo dos adultos e tendo para isso se preparado, encontram em determinado momento essa moratória que lhe impede de viver do modo para o qual se preparou e foi preparado.
     A resposta à pergunta, conforme o autor, provavelmente seria variado: raiva, ojeriza, desprezo e enfim, rebeldia. E acrescenta ainda que se houvesse uma tribo inimiga, seria o momento de considerar uma traição. Provavelmente, o leitor que se permitisse vivenciar a situação das personagens da história, voltaria a se agrupar com os companheiros do avião, que a essa altura estariam enfrentando a mesma situação, e acabariam constituindo uma espécie de tribo na tribo, outorgando-se mutuamente o reconhecimento que a sociedade parece temporariamente negar a todos, esse raciocínio parece explicar os motivos do período conturbado que é a adolescência, que além de coincidir com as alterações fisiológicas decorrentes da entrada na puberdade, coloca o jovem diante de um período de suspensão, onde não encontrando o reconhecimento como adulto na sociedade, vai buscá-lo com seus pares, tudo perfeitamente visualizável no dia-a-dia e quem se permitir lembrar-se de si mesmo nessa fase, vai achar que faz sentido.
     O autor afirma que a imposição dessa moratória já seria razão suficiente para que a adolescência assim criada e mantida fosse uma época da vida no mínimo inquieta. O jovem aprende os valores agradáveis à sociedade e entre eles o ideal da independência e quando está preparado para exercê-lo a moratória lhe veta esse ideal, condenando-o a ser dependente por mais algum tempo. Outro paradoxo é a frustração em função da moratória e a imposição que ele seja feliz, pois a idealização que sofre a adolescência a descreve como um momento de muitas felicidades. Junta-se a tudo isso a incerteza decorrente do saber quando inicia a adolescência e o não saber quando termina.
     Segundo Calligaris, a adolescência é uma criação relativamente nova, fruto de nossa época, e essa criação passa a ser problema quando o olhar dos adultos não reconhece nos jovens os sinais da passagem para a idade adulta. O adolescente olha para si no espelho e constata que não é mais criança e para crescer renuncia àquela proteção e solicitude que sua imagem infantil lhe garantia, para poder ter o reconhecimento que agora julga merecedor. Diante disso se encontra num momento, certamente desagradável, em quer não se julga mais criança e não consegue ser reconhecido como adulto. Entre a criança que se foi e o adulto que ainda não chega, o espelho do adolescente é freqüentemente vazio. Podemos entender então como essa época da vida possa ser campeã em fragilidade de autoestima, depressão e tentativa de suicídio. Esse trecho extraído do texto de Calligaris faz entender a gravidade que pode ter esse momento da vida onde a insegurança é um dos traços mais marcantes.
      Outra idéia interessante presente no livro, dá a entender que o problema não está somente no adolescente em relação aos adultos, mas também nos adultos em relação aos adolescentes, além do fato dos adultos serem contraditórios nos seus pedidos e exigências (conscientes e inconscientes), querem que de alguma maneira os adolescentes realizem seus ideais que não puderam realizar ou então de reprimirem no adolescente o que não á toa reprimiram em si mesmos.
     No decorrer da obra, o autor fala sobre o adolescente delinqüente; toxicômano; que se enfeia; barulhento, etc. todos atrás de reconhecimento, buscando por outras vias o que a sociedade de adultos lhes nega.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Alguns destaques do livro " MANICÔMIOS, PRISÕES E CONVENTOS"

 AUTOR: ERVING GOFFMANN
As instituições totais podem ser divididas em 5 categorias:
1-    Instituições criadas para cuidar de pessoas incapazes de cuidar de si mesmas, inofensivas, indefesas, como idosos, órfãos, cegos, indigentes;
2-    Instituições criadas para cuidar de pessoas incapazes de cuidar de si mesmas e que são também uma ameaça a outras pessoas, a comunidade, que são os sanatórios para os doentes mentais, para os tuberculosos, os leprosos;
3-   Instituições totais para proteger a comunidade das outras pessoas que são as cadeias;
4-   Instituições para realizar de modo mais adequado o trabalho, como quartéis, internatos, colônias, grandes mansões;
5- Instituições que são refúgio do mundo, os mosteiros, conventos para os religiosos.

Quando resenhamos as diversas instituições coloca , Goffmann algumas são mais fechadas que outras, pois além do espaço físico existe o aspecto psicológico.
Um ponto central é que todas:  rompem com o processo natural da vida que é o de dormirem em determinado local, brincar em outro, trabalhar em outro, tudo isso com diferentes pessoas e sob diferentes autoridades e passarem a realizarem todas essas funções, ou seja todas as esferas da vida em um mesmo local e sob uma única autoridade.
Segundo ponto destacado é que cada fase de atividade diária é realizada na companhia imediata de um grupo de pessoas, relativamente grande, todas elas tratadas da mesma   forma e obrigadas fazerem as mesmas coisas e em conjunto.
Terceiro ponto essas atividades tem normas, regras extremamente rígidas e impostas de cima sem negociação.
Finalmente todas as varias atividades são reunidas em um plano racional único para atender aos objetivos oficiais da instituição.
O que são encontrados também em outros locais além das instituições totais, como por exemplo em:
-  estabelecimentos comerciais;
- estabelecimentos industriais;
- estabelecimentos educacionais;
     Cada vez mais com a introdução de refeitórios padronizados, uniformes, recursos de distração para seus participantes,  nos  moldes das instituições totais.
Dentro das I. Totais existem uma divisão:
1-    grupo dos internados;
2-    equipe de dirigentes, supervisores
Cada agrupamento tende a conceber o outro através de esteriótipos, em que os dirigentes vêem os internados como:
1-    amargos;
2-    reservados;
3-    culpados;
4-    não merecedores de confiança.



Em contrapartida os internados vêem os dirigentes como:

1-    condescendentes;
2-    arbitrários;
3-    mesquinhos;
4-    corruptos.
Os dirigentes tendem a se sentirem superiores, corretos.
Os internados tendem a se sentirem pelo menos sob alguns aspectos:
1-    inferiores;
2-    fracos;
3-    censuráveis;
4-    culpados.
Há uma grande distância social entre eles: Goffmann destaca: “até a conversa entre as fronteiras pode ser realizada em tom especial de voz”, com restrições de informações ocultando por exemplo:
1-    destino de viagem quando faziam, mesmo para alguma outra enfermaria;
2-     ocultamento de diagnostico;
3-    Tempo de internação;
4-    Autorização de visitas;
5-    Telefonemas.
Todas essas restrições dão uma base especifica da distancia e o controle dos dirigentes e seus internados, conservando os esteriotipos antagônicos.
O Mundo do Internado
Quando a estada é muito longa ocorre o que o autor chama de  desculturamento;  destreinamento; que o torna temporariamente incapaz.
Ao entrar em uma Instituição Total começa uma serie de rebaixamentos:
1-    degradações;
2-    humilhações;
3-    profanação do eu, pois o seu “eu” é sistematicamente mortificado.
As Principais Mortificações do Eu que as I. Totais promovem:
1-    barreiras entre o internado e o meio externo, com proibições iniciais de visitas e proibições de saídas o que assegura uma ruptura com os papéis anteriores;
2-    morte civil:  não compra, não participa de processos decisórios, não vê filho crescer;
3-    procedimentos padrão desde o seu ingresso: despe-se de todos os seus bens, corta-se o cabelo, diz-se suas obrigações de respeito, bem como maneiras de se comportar.
Ou  ele se revolta ou obedece sempre.
Os momentos iniciais de socialização podem incluir um teste de obediência ou um desafio de quebra de vontade; um internado que se mostre insolente pode receber castigo imediato e visível que aumente ate que explicitamente peça perdão ou se humilhe.
Sem chaves, sem bens  o internado pode ser obrigado a mudar de cela a fim de que não fique ligado a ela.
Psicologicamente um conjunto de bens individuais tem uma relação muito grande como “eu”. A pessoa geralmente tem um certo controle da maneira de se apresentar diante dos outros, para isso normalmente utiliza-se de cosméticos, roupas, e de locais para guardá-las: “estojo de identidades”, acessa a especialistas em apresentação: cabeleireiros, costureiros.


O que em uma I. Total todos esses       vínculos     são     cortados 
consequentemente a deformação pessoal é visível, gerando perda de sentido de segurança, angustia, alem das terapias de choque que geram o branquiamento dos cabelos o que para as mulheres principalmente é um  agravante abalo do “eu”.

Algumas Formas de Humilhação aos Internados:
1-    curvar-se;
2-    dirigir-se sempre com deferência: Sr., Sra;
3-    a equipe dirigente pode falar e gozar do internado como se não tivesse presente;
4-    em estabelecimentos militares o trabalho obrigatório com minúcias pode fazer com que os soldados sintam que seu tempo e esforço não tenham o menor valor;
5-    aceitar papeis que não se identificam;
6-    negação de relações heterossexuais pode provocar o medo da perda da masculinidade; 
7-    em campos de concentração os prisioneiros eram obrigados a surrar os outros presos.

Nas instituições Totais os territórios de “eu” são violados constantemente, pois as fronteiras que o individuo estabelece entre o seu ser     e o ambiente  é desrespeitada a todo momento.
Os presos e os doentes mentais    não podem impedir que os visitantes os vejam em circunstancias humilhantes.
Exemplo de outras humilhações: banheiros sem porta, tempo para ir urinar ou defecar.
Uma das formas mais eficazes de perturbar a “economia de ação” de uma pessoa é a obrigação de pedir permissão para realizar qualquer ato, desde um ir ao banheiro, pedir fósforos, lençóis limpos,  telefonar ou seja atividades secundarias que poderia ser realizadas sozinho.
Arregimentação: regras, regulamentos realizados em conjunto com outros grupos de internados.
No mundo externo a pessoa esta sob a autoridade de um único superior imediato, ligado ao trabalho ou sob a autoridade do cônjuge, na I. Total esta sob a autoridade de vários ao mesmo tempo.
Depoimento de um paciente:
“Sinto-me como algo entre um prisioneiro e um mendigo. Ao menor erro, ou sintoma nervoso, recusa de alimento, ofensa pessoal, a enfermeira me encaminha para a enfermaria “j””.
Até renunciar a certos níveis de sociabilidade com seus companheiros é um processo de mortificação que apresenta três problemas gerais: a I. T. perturbam as ações que na sociedade civil tem o papel de atestar que o autor é:
1-    adulto;
2-    tem autonomia;
3-    tem liberdade de ação.
A impossibilidade de manter esse tipo de competência executiva adulta,  ou pelo menos os seus símbolos pode provocar no internado o horror de sentir-se infantilizado.
Ele não pode nem externalizar o seu descontentamento para os seus familiares, pois corre o risco de ser usado como prova de seu estado psiquiátrico, religioso ou consciência política da pessoa.
Em um mosteiro contemporâneo,tudo serve para lembrar quem somos e quem é Deus.

Isso é complementado pela automortificação:
1-    restrição para renuncia;
2-    autoflagelação;
3-    inquisição para confissão .

Possíveis conseqüências:
1-    perda do sono;
2-    indecisão crônica;
3-    insuficiência de alimentação
4-    angústia.

                   O internado usara de diferentes táticas para adaptar-se
                   1-tatica do afastamento da situação: deixa de dar atenção ao 
                  a tudo, com exceção ao seu corpo tudo o resto ele se afasta;
         2-tática da intransigência: nega-se a cooperar;
         3-colonização:  o pouco do mundo externo que é dado ao
         estabelecimento é considerado para o internado como o todo,   
         e uma existência estável relativamente satisfatória, colonizado
         satisfeito com a instituição;
          4-a conversão: modo de adaptação ao ambiente o interno
          Parece aceitar a interpretação oficial e ser o interno perfeito.


         Se o colonizado constitui na medida do possível uma           
         Comunidade livre para si mesmo, o convertido aceita uma  
         Tática mais disciplinada, moralista e esta sempre a disposição.




Diferenças das Instituições Totais

Alguns doentes mentais da classe baixa dos hospitais psiquiátricos  que vieram de: orfanatos, reformatórios e cadeias, tendem a ver o hospital apenas como outra instituição na qual podem aplicar as técnicas de adaptação já
Apreendidas e aperfeiçoadas em instituições semelhantes.
A viração não representa uma carreira moral, mas uma tática que já faz parte de sua segunda natureza.
Alguns temas predominantes da cultura do internado: cria histórias tristes, um tipo de lamentação ou defesa, o “eu” do internado é o foco de interesse, com excesso de piedade de si mesmo, o que a equipe diretora constantemente desmente.

Objetivos confessados da Instituição:
1-    realização de objetivos econômicos;
2-    educação e instrução;
3-    tratamento medico ou psiquiátrico;
4-    purificação religiosa;
5-    proteção da comunidade mais ampla e segundo  sugestão
de um estudioso das prisões, incapacitação, retribuição, intimidação e reforma.
Segundo Goffmann existem esquemas de interpretação da I. T. que começam a atuar automaticamente logo que o internado e admitido, um homem quando é colocado:
1-    numa prisão política: traidor;
2-    numa cadeia: um delinqüente;
3-    num hospital psiquiátrico: deve estar louco, senão por que estaria aí?

Essa identificação automática não é apenas uma forma de dar nomes, mas também esta no centro de um meio básico de controle social. Todos os desejos e pedidos por mais razoáveis que sejam por parte do internado são considerados pela equipe como prova da doença mental, um SINTOMA.
A normalidade nunca é reconhecida pelo auxiliar num ambiente em que a anormalidade é a expectativa normal, e reforçada pelos médicos.
Nas prisões encontramos um conflito atual entre a teoria psiquiátrica e a teoria da fraqueza moral do crime. Nos conventos encontramos teorias a respeito das formas pelas quais um espírito pode ser  forte ou fraco.
Existe a crença que se um   homem for levado ao seu estado de ruptura será depois incapaz de apresentar qualquer resistência.